Executivo afirma que reduzir de 44 para 36 horas eleva custos em até 20%, pode derrubar o PIB e ignora o “colapso de produtividade” do País.
Por Hugo Cilo

Em um ano marcado por juros ainda elevados, incertezas políticas e debates intensos no Congresso, a indústria brasileira de máquinas e equipamentos surpreendeu ao encerrar 2025 com crescimento de 8,3% no faturamento. O desempenho, segundo José Velloso, presidente da Associação Brasileira da Indústria de Máquinas e Equipamentos, ocorreu apesar de um ambiente de crédito considerado “proibitivo”, com linhas do Finame operando perto de 22% ao ano e a maior parte das vendas realizadas à vista.
Nesta entrevista, Velloso faz um balanço detalhado do setor, analisa o comportamento das exportações diante do tarifaço norte-americano, projeta o cenário para 2026 e defende que o principal gargalo da economia brasileira não é jornada de trabalho, mas produtividade e investimento. Ao comentar a proposta de redução da jornada semanal de 44 para 36 horas, ele eleva o volume e classifica a medida como um risco para custos, emprego e crescimento, argumentando que o país enfrenta um “abismo de produtividade” e deficiência de mão de obra comprometida.
A Abimaq sempre reclama do cenário econômico, mas os números de 2025 para o setor foram muito positivos…
De fato, para o setor de máquinas, 2025 foi, por incrível que pareça, um ano bom. Crescemos 8,3% em faturamento. O mercado interno avançou 8,5% e as exportações subiram 5%. Isso em um cenário de juros elevados e investimento estruturalmente baixo no País.
Como explicar o crescimento com crédito tão caro?
O menor juro para financiar máquinas é do BNDES, via Finame, e ficou entre 18% e 22% ao ano, média de 20%. É um custo proibitivo para financiamento de longo prazo. Ainda assim, menos de 0,5% do nosso faturamento foi financiado pelo BNDES. Cerca de 80% das máquinas vendidas foram pagas à vista. Isso é anormal para qualquer economia que pretenda investir e crescer de forma consistente.
O que isso revela sobre o ambiente de investimento?
O Brasil continua investindo pouco. A formação bruta de capital fixo ficou em torno de 17,2% do PIB, quando deveria estar perto de 25%. Desde 2014 convivemos com uma taxa de investimento baixa. Isso compromete a produtividade e a capacidade de expansão sustentada.
No comércio exterior, o setor foi afetado pela tarifação dos Estados Unidos. Ainda assim, as exportações cresceram.
O setor de máquinas é um dos mais afetados pela tarifação. As vendas para os Estados Unidos caíram 9%, mas o impacto foi concentrado nos últimos meses do ano. Se tivesse sido o ano inteiro, a queda poderia ter sido muito maior. Ainda assim, o faturamento total de exportações cresceu 5%. Em muitos casos, as empresas venderam com margens comprimidas.
Quem compensou a retração nos EUA?
Uma Argentina. O país passou de 9% para 12% das nossas exportações, com crescimento de 34%. Houve melhora na economia argentina e isso se refletiu nas encomendas. Já o México perdeu espaço, possivelmente por restrições à triangulação comercial com os EUA. E Singapura virou o terceiro destino, com crescimento de 74%, impulsionado por compras relacionadas às plataformas da Petrobras montadas naquele país.
No mercado interno, o que sustentou o crescimento?
Primeiro, a base era muito deprimida. O setor acumulou queda próxima de 25% entre 2022 e 2024. O crescimento de agora não recupera nem metade das perdas. Segundo, a necessidade de modernização tecnológica. Cerca de 38% das compras de máquinas são motivadas por atualização tecnológica e 31% por aumento de produção. Ficar anos sem investir gera defasagem e perda de competitividade.
E as máquinas agrícolas?
Cresceram 7,4% e representam 30% do setor. Mas é importante contextualizar. Em 2022, vendemos R$ 99 bilhões em máquinas agrícolas. Em 2025, foram R$ 66 bilhões. Ainda estamos muito abaixo do pico anterior. Além disso, no varejo praticamente não houve crescimento. O aumento ocorreu na venda do fabricante para o distribuidor, o que indica aumento de estoques.
Qual sua leitura sobre o câmbio?
O dólar médio ficou perto de R$ 5,50. Houve momentos acima de R$ 6 por especulação. No prazo médio, acredito em estabilização abaixo desse patamar, possivelmente perto de R$ 5, dependendo do ambiente político e econômico. O Brasil tende a ampliar as exportações de petróleo e produtos agrícolas, o que fortalece o fluxo cambial.
E para 2026, qual a projeção?
Projetamos crescimento de 4% no faturamento do setor. Agricultura e infraestrutura devem puxar esse desempenho. A indústria de transformação deve crescer pouco, algo entre 1% e 1,2%. Nas exportações, estimamos alta de 4%.
O ano eleitoral pode alterar esse cenário?
Pode. Na última eleição, houve cancelamento de pedidos no agro após o resultado. Antes das eleições, pode haver impulso em infraestrutura. Mas o Brasil é imprevisível. Mudanças políticas podem alterar as expectativas rapidamente.
Vamos à pauta da redução da jornada. Qual é o impacto?
Do jeito que está sendo proposta, é uma loucura, uma bomba econômica. Não é uma demanda espontânea da sociedade. É uma pauta sindical com forte viés eleitoral. O trabalhador hoje enfrenta outros desafios, como informalidade e insegurança previdenciária. A previdência já representa cerca de 3,5% do PIB. A discussão deveria ser focada em produtividade e sustentabilidade fiscal.
O senhor vê motivação política na proposta?
Sim. Muitos deputados admitem com reserva que não defendem uma proposta sem mérito, mas têm de votar contra por recebimento eleitoral. Isso mostra que o debate técnico está sendo substituído por projeto político.
Mas uma jornada eficaz já não é menor na prática?
Exatamente. Embora a lei fale em 44 horas, a média real na indústria é de 40,8 horas e na economia como um todo, 39,3 horas. Isso ocorre por meio da livre negociação. No setor de máquinas, 88% das empresas já operam com escala 5 por 2 e média de 40,2 horas. O modelo atual é flexível e adaptável à realidade de cada atividade.
Qual seria o impacto econômico direto?
Segundo estimativas da CNI, o aumento de custo na indústria seria de R$ 178 bilhões. Para a economia como um todo, a elevação pode chegar a 20,7% se uma jornada cair para 36 horas. Estudo da FGV Ibre indica possível queda do PIB de 11%. Em empresas pequenas, que representam a maioria no país, a redução implicaria contratação adicional para manter a operação, elevando custos e instruções de preços.
Como o Brasil se compara internacionalmente?
A média da OCDE é de 42,46 horas semanais e do G20, 42,61 horas. O Brasil, por lei, tem 44 horas, mas na prática já trabalha menos do que essas médias. Reduzir por PEC elimina a flexibilidade negociada e ignora as diferenças setoriais.
O senhor insiste na questão da produtividade.
Porque é o verdadeiro problema. Em 1980, a produtividade do trabalho no Brasil era de 50% dos Estados Unidos. Hoje é 25%. Caiu pela metade. Isso corre de baixo investimento em capital por trabalhador. Sem máquina e tecnologia moderna, a produção por hora é menor.
E quanto à automação?
O Brasil tem 10 robôs para 10 mil trabalhadores. A média mundial é 162. A Coreia tem mais de mil. Não temos base tecnológica para sustentar a redução compulsória de jornada. Falar em automação como justificativa é desconhecer a realidade produtiva brasileira.
Ainda há escassez de mão de obra.
Esse é outro fator crítico. Empresas enfrentam dificuldades para contratar e qualificar. Em várias regiões, a taxa de desocupação efetiva é muito baixa. Reduzir a jornada sem resolver qualificação e disponibilidade de trabalhadores agrava o problema operacional.
O que a Abimaq fará?
Vamos intensificar o diálogo com a sociedade e com o Congresso. Já solicitamos audiência formal e participação em eventual debate público. Precisamos discutir com dados e responsabilidade.
A proposta passa?
Não será simples barrar, porque o ambiente é politizado. Mas acredito que, se o debate se concentrar em números e impactos reais sobre custo, produtividade e crescimento, a sociedade perceberá que esta proposta, nos moldes atuais, não resolverá problemas estruturais e poderá criar novos.
